“É necessário continuar a reforçar a competitividade do sector da construção para responder ao novo ciclo”

Por a 11 de Outubro de 2020

Luís Castro Henriques, presidente AICEP
@DR

Aqueles que são os pontos fortes do sector da construção e dos materiais de construção portugueses ficaram enfraquecidos com esta crise pandémica?

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Não consideramos que os pontos fortes da construção e dos materiais de construção portugueses tenham ficado enfraquecidos com a crise provocada pela COVID-19, pois o impacto resultante da mesma tem sido, em geral, mais moderado comparativamente com outros sectores de actividade.

Os pontos fortes das nossas empresas vão permitir-lhes resistir à crise e superá-la da melhor forma, na medida em que continuarão a ser vantagens competitivas face a uma concorrência cada vez mais forte e dinâmica, especialmente quando entrarmos em pleno na fase de reactivação e retoma económica nos mercados externos, tradicionais e emergentes.

Referimo-nos, por exemplo, no que ao sector da construção diz respeito, ao dinamismo e competitividade das empresas portuguesas, à sua reconhecida capacidade de internacionalização e de adaptação/flexibilidade, à vasta experiência e competências das empresas em obras (de arte) complexas ou na reabilitação urbana e de edifícios históricos, ao talento dos arquitectos, engenheiros e outros profissionais portugueses, bem como à qualidade da mão-de-obra tradicional e à aposta na inovação, tecnologia, digitalização, sustentabilidade e eficiência energética.

Já no sector dos materiais de construção destacam-se como pontos fortes a existência de produtos certificados, de alto valor acrescentado e de elevada performance, a flexibilidade de produção, entrega e condições de fornecimento, a incorporação de tecnologia na produção, a capacidade de inovação (materiais disruptivos), Design e oferta integrada de produtos e uma cultura de negócios e experiência internacional em diversos mercados.

Como analisa a forma como as empresas do sector responderam a esta crise?

Desde o início da pandemia que os sectores da construção, imobiliário e dos materiais de construção não pararam, na medida em que as obras públicas e privadas não foram suspensas e as empresas de produção e distribuição de materiais não interromperam actividade, excetuando alguns exportadores que tiveram que suspender ou diminuir o seu nível de actividade por cancelamento/adiamento de encomendas (acumulação de stocks) ou falhas na sua cadeia de abastecimento.

As empresas desses sectores (grandes e PME), em geral, responderam de forma resiliente e dinâmica às dificuldades e desafios provocadas por esta crise, fazendo um esforço importante a nível operacional e financeiro para manter a sua actividade produtiva, de serviços e exportadora, conseguindo garantir a construção e manutenção de infraestruturas e equipamentos vitais nas circunstâncias que vivemos. As empresas e os seus trabalhadores adaptaram-se rapidamente ao novo contexto, implementando medidas de proteção e as orientações recomendadas pela Direção- Geral da Saúde, substituindo importações (ante as dificuldades de abastecimento desde alguns mercados europeus e asiáticos), adaptando o formato de venda (apostando na visita a imóveis pela via digital, por exemplo) e recorrendo ao teletrabalho e lay-off simplificado, em certos casos.

Em termos de promoção internacional, as empresas destes sectores, mas sobretudo as de materiais de construção tiveram que reinventar a sua estratégia, face ao cancelamento e adiamento das feiras comerciais, apostando agora em novos formatos, como as plataformas digitais e marketplaces, showrooms, feiras e exposições virtuais, sessões de reuniões B2B com potenciais clientes por videoconferência, entre outras, considerando também a promoção conjunta com os produtos da fileira casa.

Os próprios modelos de negócio terão tendência a assentar cada vez mais na digitalização, através de várias ferramentas de produção, marketing e gestão do cliente, e no comércio eletrónico. Neste âmbito, a AICEP tem dado um apoio importante, com novos produtos e serviços para capacitação das empresas, nomeadamente com foco no e-commerce nos mercados externos.

Qual o impacto provocado por esta crise actual nas exportações do sector quer ao nível da construção quer dos materiais de construção?

Ainda é um pouco cedo para medir o impacto global nas exportações portuguesas nestes sectores de actividade provocado pela crise pandémica, mas dados do Banco de Portugal apontam para uma diminuição do valor das exportações de serviços de construção civil de 22,9% no período de Janeiro a Abril de 2020 face ao período homólogo.

A nível dos materiais de construção, segundo o INE, verificou-se uma quebra de 16,2% no valor das exportações totais no período de Janeiro a Junho de 2020 em termos homólogos, com diminuições em todos os subsetores, exceto em “Tintas e Vernizes” que registou uma subida de 6,9%. Nos subsetores do “Vidro” (-28,1%), “Cimento, Gesso e Betão” (-23,1%), “Cerâmica” (-20,3%), “Rochas Ornamentais” (- 19,2%) e “Madeira (-17,8%). Por seu turno, as empresas de Materiais de Construção exportaram em 2019 para 174 mercados, ao passo que até Junho do corrente exportavam para 152 mercados, o que significa menor acesso aos mercados externos fruto da pandemia e do consequente encerramento ou criação de barreiras dos mesmos às importações e de constrangimentos logísticos para entrega de mercadorias.

A real dimensão da quebra de vendas em 2020 e 2021 nos mercados externos poderá começar a ser vislumbrada a partir de Outubro, se as novas encomendas forem escassas, como resultado de uma procura menor dos consumidores nos principais países clientes.

Após esta crise iremos verificar mudanças naqueles que são os mercados tradicionais das nossas exportações?

Não podendo ainda antecipar uma data para o fim desta crise e prever com exactidão o comportamento e evolução dos mercados, consideramos que poderão existir mudanças nos mercados tradicionais das exportações portuguesas de serviços de construção civil, designadamente México, Angola, Brasil, Polónia e Moçambique, na medida em que os impactos da pandemia poderão provocar recessões económicas mais prolongadas nalguns países. No entanto, é expectável que a maioria desses mercados (sobretudo o europeu) assente os seus planos de recuperação económica nos próximos anos em planos de investimento em infraestrutura e edificação (financiados por dívida pública junto de agências multilaterais ou outros operadores financeiros internos e externos), levando ao aparecimento de novos projectos e retoma de obras e projectos em diversas áreas, que tenham sido suspensos ou adiados no período da pandemia. Tendência que poderá ser alargada às obras privadas nos sectores do turismo, indústria e comércio. As empresas portuguesas que conseguirem manter as suas posições nestes mercados poderão ganhar esses novos contratos e fazer face ao aparecimento de maior concorrência de construtoras estrangeiras que buscam novos mercados, sobretudo em África, e América Central e do Sul.

E nos materiais de construção?

Já a nível dos materiais de construção, prevemos que os nossos clientes tradicionais, a Espanha, França, Alemanha, Reino Unido e EUA,  se mantenham relativamente estáveis (com alternância de um ou outro mercado no Top 5 de valor de exportações), em função da reabertura dos seus mercados e restabelecimento das cadeias de abastecimento, dos planos de recuperação económica assentes em investimento em infraestrutura e edificação, surgimento de projectos públicos e privados novos ou reativação de outros adiados devido à pandemia, pela retoma da procura, reforço da promoção externa da produção nacional e  aposta no e-commerce, entre outros factores.

“Plano de recuperação da economia são será panaceia das empresas portuguesas”

O plano de recuperação da economia assenta no investimento e aposta em infraestruturas. Isto são boas notícias para o sector, mas será o suficiente?

Em Portugal sem dúvida. Efectivamente são boas notícias para os sectores da construção e dos materiais de construção portugueses, pois quer o Plano de Recuperação e Resiliência, derivado do documento “Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030”, quer o Programa Nacional de Investimentos 2030, contemplam vários milhões de euros de investimento público (apoiado por fundos europeus) previsto para os próximos anos em grandes projectos nas áreas das infraestruturas, habitação social, transportes e mobilidade, ambiente, energia e eficiência hídrica), e o que ainda pode ser executado no âmbito do Portugal 2020, irão permitir ganhos significativos às empresas.

Provavelmente, estes projectos, por si só, não serão a panaceia das empresas portuguesas destes sectores, mas ajudarão certamente a mitigar os impactos da crise e a permitir a retoma de maior actividade, recuperar facturação e aumentar o emprego. Espera-se que os outros segmentos da construção (edificação residencial e não residencial e trabalhos de reabilitação e manutenção), potenciados pelo crescente investimento, nacional e estrangeiro, no sector imobiliário, possam contribuir também à retoma económica e crescimento do sector que vigorou entre 2017 e início de 2020.

Para além disso, também poderão explorar oportunidades decorrentes dos planos de recuperação e resiliência de outros países europeus. As nossas empresas, grandes e PME, devem continuar a sua aposta de expansão de negócios nos mercados externos, inclusive para novas geografias, para diversificar ganhos e riscos, e a AICEP, na prossecução da sua missão, está ao seu lado para apoiá-los no seu processo de internacionalização.

Cada vez mais vemos ao nível das grandes infraestruturas/obras a sua adjudicação a empresas não portuguesas. O reforço da competitividade do sector da construção é crucial?

Consideramos que realmente é necessário manter e continuar a reforçar a competitividade do sector da construção para responder a este novo ciclo, num contexto de incerteza e com muitos desafios colocados pela pandemia. Para o efeito, as empresas do sector devem acompanhar as novas tendências e continuar a apostar na inovação (a nível de novos materiais e técnicas de construção, decorrentes da Indústria 4.0), na tecnologia e na transformação digital do seu negócio, de modo a poderem aumentar a sua produtividade e a eficiência dos seus processos e assim poderem ser mais competitivas.

Outros aspectos que podem potenciar a competitividade das nossas empresas, reforçando as suas capacidades para responder aos actuais e futuros desafios são: a aposta na constituição de consórcios entre empresas portuguesas com várias valências e especialidades, para responder a oportunidades de negócio no mercado interno e nos mercados externos; o reforço e formação das equipas de desenvolvimento de negócio para a prospecção de oportunidades a nível de concursos internacionais de obras públicas e privadas, em novos mercados, de obras financiadas ou executadas por multilaterais e por organizações do sistema científico e tecnológico internacional onde Portugal é membro (por ex. CERN, ITER, ESO, entre outras); a aposta cada vez maior na eficiência energética e sustentabilidade de toda a cadeia de valor da construção, numa lógica de “economia circular”, de modo a potenciar a sua eficiência.

Têm vindo a auscultar o mercado, quais as principais preocupações?

Em resultado de um processo de auscultação e medição dos impactos da pandemia que a AICEP tem vindo a fazer ao longo dos últimos meses junto dos seus clientes, concluímos que a principal preocupação das empresas portuguesas destes sectores reside na incerteza sobre a evolução da situação da pandemia e do comportamento dos mercados no curto/médio prazo, em termos de continuidade de obras e lançamento de novos projectos de investimento de obras públicas (concursos) e licenciamento de obras privadas, sobretudo a nível das infraestruturas e de construção nova/reabilitação de imobiliário.

No entanto, temos a convicção que, controlada a pandemia, a construção civil e o imobiliário irão ser aposta e motores da recuperação económica global, impulsionando nessa medida o sector dos materiais de construção, pelo que a AICEP continua ao lado das empresas portuguesas para promover a sua internacionalização e apoiar as suas exportações, através dos seus recursos, produtos e serviços em Portugal e nos mercados externos, em articulação com a rede diplomática e consular.

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