Calatrava apresenta Palácio de Congressos

Por a 3 de Novembro de 2006

Ricardo Batista, em Oviedo*

A conclusão está prevista para a Primavera de 2008 e trata-se, até ao momento, do último grande projecto do arquitecto Santiago Calatrava em território espanhol. O Palácio de Congressos e Exposições de Oviedo é uma obra promovida pela Jovellanos XXI e está avaliado em 300 milhões de euros mas destaca-se sobretudo pela imponência com que se eleva nos terrenos onde outrora estava instalado o estádio Carlos Tartiere, na zona da Buenavista. Numa sessão onde explicou as principais linhas do seu projecto, e que sucedeu a inauguração de uma exposição onde constam inúmeras maquetes dos seus trabalhos, Santiago Calatrava fez questão de enaltecer a excelência do espaço público que havia criado e que de alguma forma surge no seguimento do que tem feito ao longo dos 25 anos de profissão. Entre escolas, projectos de arte e estações, na memória está a Gare do Oriente, no Parque das Nações, Lisboa.

Área central preponderante

O projecto de Oviedo terá como área central e preponderante o Palácio de Exposições e Congressos, que incluem entre outras áreas um auditório dos maiores já construídos em Espanha com uma área superior a 4500 metros quadrados, salas polivalentes destinadas a conferências e um outro espaço amplo, este com uma área de 660 metros quadrados, num total, só destinado ao Palácio de Congressos de 15.500 metros quadrados. Segundo a memória descritiva do projecto, trata-se de um «elemento singular» disposto sobre uma praça semicerrada que dá a noção de estar a flutuar sobre a água. Calatrava neste elemento central inclui um elemento com características muito próprias nos seus trabalhos, nomeadamente uma estrutura móvel em aço branco que se assemelha a uma concha. Em relação à estrutura envolvente, essa está disposta em forma de “U” em torno do Palácio de Congressos. Na zona sul desse edifício será instalada uma unidade hoteleira com capacidade para 150 quartos ao passo que nas restantes áreas serão distribuídos escritórios, entre os quais os serviços administrativos do Governo do Principado das Astúrias. Na zona inferior estão construídos já os três pisos destinados a estacionamento com capacidade para 1800 lugares, numa área de 15.800 metros quadrados.

O projecto vai ainda contar com uma vertente comercial, esta desenvolvida pela Multi Development e também gerido pela Jovellanos XXI. São 40 mil metros quadrados de Área Bruta Locável distribuídos por três pisos, e onde a luz natural será um dos pontos a reter nesta área do projecto, que contará com a presença do El Corte Inglês. O Espaço Buenavista está também integrado no plano de requalificação urbana do centro da cidade espanhola.

Carácter público

Santiago Calatrava faz, no entanto, questão de salientar o cariz público de toda esta obra. São mais de 30 mil metros quadrados de áreas para uso público. «Tenho de dizer que está a ser uma aventura extraordinária, todas as complexidades e dificuldades para levar adiante um projecto como este. Tecnicamente difícil, materialmente difícil e exigente», disse o arquitecto valenciano, acrescentando que um dos objectivos do projecto passou por «conferir a mesma dignidade a esta obra que merecem outros importantes pontos da cidade, e queremos naturalmente quês espaço também ele se torne uma referência». Calatrava lembrou que «Oviedo é uma cidade belíssima, com um enorme sentido cívico e humano, cuidada, ordenada» e salientou que «isso é um dos expoentes máximos de qualquer espaço público, quando as pessoas cuidam dele da mesma forma que cuidam dos seus próprios espaços».

O autor do projecto considera que desenhar um Palácio de Congressos num espaço onde antes existia um estádio de futebol foi uma ideia bastante interessante. «Os caminhos na mente das pessoas até ao estádio são os mesmo que terão de percorrer até chegar ao centro de congressos. Por aqui passaram milhares de pessoas que no final das partidas regressavam a suas casas mas que nas suas mentes criaram uma relação de proximidade com o espaço. E essa foi desde sempre a ideia fulcral para esta obra: conferir efectivamente um grande espaço público onde as pessoas possam acorrer», referiu Santiago Calatrava na sessão de apresentação do projecto. Mais de 70 por cento do total do espaço é de uso público. «A grande diferença entre este sítio e um espaço do início do século XX é que esses são normalmente edifícios com uma fachada unívoca, com uma porta pela qual terão de passar para poder entrar no edifício. Há que mudar esse cenário. Uma das coisas importantes em que temos necessariamente de pensar é gerar um espaço com grande sentido de acolhimento», diz o arquitecto responsável pelo projecto arquitectónico, explicando a importância da forma em “U” da estrutura.

Forma simbólica

Segundo Calatrava, a simbólica forma limita a parcela e estabelece o sentido de urbanidade, os limites urbanos em relação aos edifícios adjacentes, edifícios de grande escala. «Cria-se uma espécie de área onde o centro será o Palácio de Congressos. Os edifícios em redor acolhem e marcam, com um âmbito especifico, o próprio centro de congressos que por sua vez também está numa área acolhedora, envolta uma espécie de concha. Estamos a fazer uma infra-estrutura que vai dotar a cidade de Oviedo de diversos equipamentos funcionais, como sejam lugares de estacionamento e de fácil mobilidade integrada no espaço urbano. Dignifica e qualifica a cidade» acrescenta Calatrava. Questionado sobre a complexidade da estrutura móvel que envolve o Palácio de Congressos, o arquitecto admite que «não foi necessário inventar nada». Não é propriamente uma novidade para Calatrava a concepção de espaços onde existam partes móveis. Este recurso deve-se sobretudo aos avanços tecnológicos. «Em qualquer edifício em altura são aplicadas tecnologias úteis para este tipo de intervenção mas onde ninguém repara muito nisso. Os elevadores são disso exemplo e tanto podem ser eléctricos como hidráulicos. No caso da solução adoptada nesta obra, trata-se de uma tecnologia hidráulica onde a grande particularidade incide sobre a quantidade de esforço necessária para conseguir levantar esta estrutura de quatro ou cinco toneladas, «ainda para mais quando não há contrapeso». Santiago Calatrava entende ainda que houve ainda que pensar na questão do comportamento estático destes elementos. «Uma situação é quando a estrutura está aberta, outra é quando está fechada, sendo esta a solução mais natural. O edifício concebe-se onde a cobertura poderá ficar na sua situação fechada. Mas durante o dia, ou em outras situações mais específicas temos de equacionar o movimento dos ascensores. No momento da abertura ou de encerramento há que garantir a funcionalidade dos mecanismos para colocar a estrutura em pontos intermédios. Neste caso há que dotar o sistema com um mecanismo que reaja em qualquer eventualidade até porque as barras que estão em contrapeso estão-no em posição favorável ao encerramento da estrutura. «Não estamos a inventar nada, estamos apenas a utilizar as tecnologias já existentes e adaptá-las para criar um elemento arquitectónico singular», reiterou o arquitecto.

Instado a comentar o facto de também esta ser uma obra em que o branco volta a ter preponderância e Oviedo ser uma cidade chuvosa, Calatrava entende que esta questão pode ser vista de diversas maneiras. O arquitecto considera que para um «levantino, a chuva é uma bênção». Mesmo no Japão, um dos sinais de boas vindas a uma qualquer casa passa por molhar a porta de entrada como se tivesse trazido a chuva. Há que entender a chuva neste sentido. E depois há que entender que a manutenção é uma questão fundamental de higiene. A chuva não lava as pessoas e tão pouco lava os edifícios. Os edifícios sujos estão nessas condições por falta de manutenção. As pinturas compram-se com uma garantia para 10 anos, não muitos mais, mas imagine-se uma Torre Eiffel sem equipas de manutenção diária. Os edifícios requerem manutenção. Este não será excepção. Mas vendo o cuidado que é colocado na manutenção da cidade não é difícil perceber que essa questão está quase assegurada».

Na primeira pessoa…

Sobre Portugal…

À margem da apresentação, Santiago Calatrava pronunciou-se ainda sobre Portugal, pais que recorda com alguma saudade e onde deixou bem vincada a sua marca, sobretudo na Gare do Oriente, no Parque das Nações.

Tem algum projecto neste momento para Portugal ?

Neste momento não, mas tenho muito boas recordações de Portugal. Temos feito de menos em Lisboa, aquela que é uma das cidades mais bonitas do Mundo. Aqui em Oviedo seguimos um pouco o exemplo do que foi feito em Lisboa com o Centro Cultural de Belém, relevante para a cidade.

Ainda assim está a participar numa importante obra em Nova Iorque…

Sim, estamos ligados a um projecto com um grande sentido simbólico e que passa por recuperar o espaço do antigo World Trade Center. Neste projecto trabalham muitos arquitecto e temos a +parte das infra-estruturas de transportes como a estação de metro, estações de comboios e criar e as ligações em torno do edifício. Mas o que quero ressalvar deste projecto é ter a possibilidade de trabalhar numa obra tão simbólica numa cidade tão maravilhosa como Nova Iorque.

* O Construir viajou a convite da Jovellanos XXI

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