“Mais do que nunca, importa estar atento às oportunidades”

Por a 14 de Janeiro de 2021

No momento em que estamos a ter esta conversa, o Governo acaba de prolongar o Estado de Emergência, havendo a perspectiva, assumida pelas autoridades, de esta ser uma situação que se vai prolongar até ao final da pandemia. Não só considerando a actividade do Focus Group como, sobretudo, tomando o seu olhar crítico sobre o mercado, o que é este estado de coisas trouxe de diferente para as empresas e para a própria arquitectura?
Eu tento sempre procurar o lado positivo das coisas. Aquilo que para a nossa actividade é o lado positivo é que, ao contrário da crise anterior, originada no sector imobiliário e financeiro, esta não tem nada a ver com isso. Não quer dizer que não tenha impacto, que terá, mas não somos a origem do problema nem somos os principais afectados num primeiro momento. O Turismo, por via da hotelaria e restauração, o alojamento local, tudo isso está a sofrer drasticamente, mas não tanto os nossos negócios.

Contudo, tendo sido o Turismo, nos últimos anos, o motor da recuperação económica, estar a ser afectado tem um impacto brutal na economia e, por conseguinte, no sector dos projectos e Construção. Nos últimos anos, o investimento público, salvo honrosas excepções, tem sido reduzido ou marginal, ao contrário do investimento privado. Esse investimento, na sua grande maioria, está relacionado com a reabilitação para habitação tendo como grande mercado os estrangeiros – que agora, mais dificilmente, continuam a comprar – , para Alojamento Local que está parado, para hotéis ou escritórios, considerando que Portugal é um País muito atractivo para trazer empresas estrangeiras ou funcionar como hub de negócios. Com o travão do Turismo e das viagens, ou o pânico gerado na população pelo Mundo fora, as pessoas viajam menos e tenho sérias dúvidas de quando voltarão a viajar. Por muito que o sector privado não tenha parado totalmente, há sinais de travagem brusca, que é visível não só nos projectos em curso como nos projectos que estavam na calha, muitos deles em standby. Isso vai ter impacto nas empresas de projecto.

Qual o grau desse impacto?
Não será, naturalmente, uma paragem total, mas um abrandamento forte, sobretudo entre as empresas que estavam direccionadas para o alojamento local, para a Reabilitação de edifícios, hotéis…Dependendo da evolução de tudo isto, assim será a dimensão do estrago. A minha expectativa é que, no outro prato da balança, possam estar os investimentos dos municípios, seja do Governo ou por via do apoio dos Fundos Comunitários, com linhas muito concretas de actuação junto do Ambiente e transformação digital. Disto isto: se por um lado não fomos, no imediato, os principais afectados, vamos ser afectados a curto/médio prazo.

Vai haver menos trabalho de um lado, mais do outro…enfim…Mais do que nunca, importa estar atento às oportunidades. Se por um lado foi bem estruturada a possibilidade de as empresas recorrerem ao layoff simplificado, para que as empresas pudessem reduzir parte dos seus custos e evitar uma espiral de despedimentos, por outro avançou-se com as moratórias dos financiamentos, o que permitiu a muitas delas não estar com a corda na garganta e permitiu, atempadamente, que empresas e investidores pudessem estar mais tranquilos. Somar pânico ao pânico nunca foi boa solução. Mais: houve outra medida com sérias e graves implicações na nossa actividade como a possibilidade de os inquilinos poderem não pagar as suas rendas e sem que houvesse qualquer apoio imediato aos senhorios. Isto é uma questão puramente ideológica. O Governo entendeu que os senhorios é que têm de aguentar as dificuldades dos inquilinos e isso é profundamente errado.

Para o investidor estrangeiro, é um factor crucial para que decida não investir neste País. Quem investe procura recolher os seus dividendos com base em cálculos de risco, em expectativas, etc… Decidir-se administrativamente que simplesmente não se paga, é frustrar essa expectativa. O impacto é gravíssimo. Estou expectante para perceber o que vai acontecer a seguir. Da nossa parte, felizmente que não tivemos problemas com os projectos em que estamos envolvidos, estão todos em curso, mesmo que os processos, sobretudo ao nível do licenciamento, estejam bastante demorados. E isso também não é bom, essa imprevisibilidade de planeamento. Numa fábrica, sabes que tens de produzir X peças de um determinado produto. Organizas, planeias, calculas e num turno de Y tempo com N pessoas, tens um resultado determinado. Não tendo qualquer previsão ou perspectiva sobre as variáveis, é complicado.

Não sabemos que trabalho temos de futuro – é uma procura constante – e há uma fase de produção que está emperrada, que é o licenciamento que não nos permite saber quando podemos começar ou avançar com determinado projecto. Temos a mão de obra disponível, matéria prima disponível, mas não sabemos quando podemos carregar no botão para produzir, embora os custos lá estejam e não as receitas. Obviamente que esta demora…tempo é dinheiro. Os investidores, sejam portugueses ou estrangeiros, podem procurar outros locais para investir, locais que sejam mais ágeis.

LEIA A VERSÃO INTEGRAL DESTA ENTREVISTA NA EDIÇÃO 425 DO CONSTRUIR

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