Estudo: Pandemia trava venda de malparado

Por a 3 de Dezembro de 2020

A pandemia veio colocar um travão a fundo na transacção de portefólios de crédito malparado (na sigla inglesa, Non-Performing Loans, NPL) em Portugal, estimando-se a conclusão de operações no valor de apenas 500 milhões de euros até Junho. Ainda assim, o País registava no 2º trimestre de 2020 um stock de NPL  de 14,2 mil milhões de euros, numa expressiva redução de 7,02 mil milhões de euros, ou seja, -33%, face ao mesmo período do ano passado. Trata-se de um dos progressos mais assinaláveis no contexto da União Europeia, quer em termos absolutos quer em termos relativos.

Esta é uma das principais conclusões da edição de 2020 do estudo “Investing in NPL in Iberia”, produzido pela Prime Yield e divulgado por ocasião do maior evento ibérico desta indústria, o “NPL Iberia 2020”, realizado no final de Novembro. O evento, este ano exclusivamente online, foi organizado pela Smith Novak e debateu os principais desafios deste sector, sendo a Prime Yield uma das empresas convidadas a intervir nos painéis de debate.

Também o rácio de NPL (que reflecte o peso do crédito malparado no total do crédito concedido) em Portugal decresceu fortemente neste período, passando de 8,9% em junho de 2019 para 5,7% em Junho de 2020. O País passa, assim, do terceiro rácio mais elevado na Europa no 2º trimestre de 2019, para o quinto no 2º trimestre de 2020.

Ainda assim, o rácio de Portugal continua a estar longe da média europeia, situada em 2,9% no 2º trimestre de 2020. Da mesma forma, apesar dos progressos na redução do stock, Portugal (8ª posição) mantém-se entre os 10 países da União Europeia com o maior volume de NPL, concentrando 3% do stock agregado, que no 2º trimestre ascendia a 526,3 mil milhões de euros.

Além disso, em termos trimestrais, nota-se um abrandamento desta tendência de redução, com o stock português de malparado a apresentar uma contracção de apenas -2,1%, ou seja, menos 300 milhões de euros face aos 14,5 mil milhões de euros registados no 1º trimestre de 2020, e o rácio recuar de 6,2% para os actuais 5,7%. No contexto europeu, a tendência é semelhante, verificando-se já até ligeiras subidas trimestrais de stock e rácio em alguns países.

“Tal é um reflexo directo da pandemia, que veio interromper o percurso geral de redução de NPL em toda a Europa, mudando dramaticamente as condições económicas e obrigando a Banca e os Governos a darem prioridade à injecção de liquidez nas economias”, começa por comentar Nelson Rêgo, CEO da Prime Yield.

Contudo, na sua perspectiva, “o verdadeiro impacto da pandemia no que se refere ao crédito malparado não é ainda visível, uma vez que existe um montante bastante significativo de crédito no sistema financeiro sujeito aos regimes de moratória.  Uma vez terminado o período das moratórias, avizinhar-se-á um grande aumento do crédito malparado em toda a Europa e também em Portugal. Se ao atual stock, somarmos o efeito das moratórias, que em Portugal representam cerca de €44 mil milhões, facilmente concluímos que a dimensão deste mercado vai crescer exponencialmente no próximo ano. De salientar que apenas agora se escoam os últimos portefólios de habitação proveniente da última crise”, nota ainda o responsável.

Por isso mesmo, Nelson Rêgo defende que “seria oportuno criar desde já mecanismos de flexibilidade para o estabelecimento de um verdadeiro mercado de arrendamento habitacional institucional que seja atrativo para os investidores, e que ajude, por um lado, as famílias a ter uma renda compatível com o seu rendimento, e, por outro, os bancos a escoar o stock de habitação hipotecada para veículos de investimento que sejam bem geridos e com a fiscalidade apropriada”.

A Prime Yield destaca neste research que a actividade de venda de NPL este ano deverá ser bastante reduzida, contabilizando-se além dos 500 milhões de euros já referentes a operações concluídas, outros 1,5 milhões de euros em operações em pipeline. Recorde-se que nos últimos dois anos, o volume anual de transacções de malparado rondou os 7,0 a €8,0 mil milhões, com as projecções pré-Covid da Prime Yield para 2020 a apontarem já para um abrandamento na actividade para os 6,0 mil milhões de euros, em resultado da transacção de portefólios mais pequenos e a existência de investimentos menos oportunísticos.

De acordo com este estudo, acompanhando a tendência de aumento exponencial de NPL apenas no prazo de um ano, o mercado de venda de carteiras deverá igualmente retomar a uma actividade mais expressiva com o mesmo diferimento.

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