Opinião: “A EMERGÊNCIA DA ARQUITECTURA”

Por a 30 de Agosto de 2020

Nuno Malheiro da Silva
Arquitecto
FOCUS GROUP
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No dia 30 de abril de 2020, o Governo anunciou o fim do estado de emergência, mas apesar de ter terminado, permanecem em vigor várias restrições destinadas a conter a pandemia do vírus Covid-19 e não sabemos, ainda, quando as nossas vidas e a nossa economia poderão regressar à normalidade.

Sabemos apenas que não voltaremos ao “normal” a que já nos estávamos a habituar, depois da crise de há uma década, da qual, o mercado da arquitectura e engenharia, dava sinais de estar a recuperar. De acordo com um estudo divulgado pela APPC, estimava-se que em 2020 ou 2021 a actividade no sector regressaria aos níveis de 2008 (recordo que a crise no sector começou bastante antes), apesar de em 2018 o volume de negócios ter ficado ainda 7,5% abaixo do registado em 2008, enquanto em 2014 estava 31% abaixo de 2008, mas se considerarmos apenas o mercado doméstico, este estava 60% abaixo. Foi a internacionalização que salvou este sector, o que dificilmente acontecerá agora.

A actividade no mercado nacional tem-se baseado na contratação pelo preço mais baixo, quer no sector público, por força do espírito do CCP, quer no sector privado, que se aproveita da forte concorrência para reduzir custos com projectos. Qualquer empresa recém-criada, sem quadros técnicos permanentes, participa em concursos públicos apenas tendo de apresentar um preço, muitas vezes anormalmente baixo, concorrendo com empresas que investem em recursos humanos de qualidade, incorrendo nos custos associados aos mesmos.
Já o disse em ocasiões anteriores, que o quadro de redução generalizada dos valores dos honorários, leva a uma gradual, mas consistente, redução da qualidade do trabalho realizado. Com valores baixos de honorários, as empresas não conseguem reforçar as suas equipas, nem investir em tecnologia.

Nos últimos anos, a actividade dos arquitectos no mercado nacional centrou-se no turismo e na reabilitação urbana destinada a habitação para estrangeiros e para alojamento local. Tanto uma, como outra, são áreas de negócio severamente afetadas pelas consequências que a pandemia Covid-19 está a ter, e terá, no turismo, o qual depende, por sua vez, das decisões políticas relativas à reabertura das fronteiras com outros países, da retoma da actividade das companhias de aviação e da confiança e capacidade financeira dos turistas.
Apesar da incerteza sobre o regresso à normalidade antes referido, é possível avançar que as consequências e principais dificuldades nas empresas de arquitectura e de engenharia residem na perda de eficiência causada pelo teletrabalho, na redução da procura por parte do setor privado, na disrupção na cadeia de pagamentos dos serviços e na impossibilidade (ou falta de vontade) do recurso ao regime legal de layoff.

Entre as dificuldades apontadas, destaca-se o facto de, ao contrário do que sucede noutras actividades, ser quase impossível trabalhar em equipa à distância (em teletrabalho) na fase de concepção criativa de projectos, principalmente no caso de concursos de ideias, em que o debate entre os membros da equipa é fundamental.

Esta pandemia terá também certamente impacto no conceito da arquitectura das habitações (não mudou nas últimas dezenas de anos), dos escritórios e do espaço público. Todos queremos poder vir a estar melhor preparados para outras eventuais pandemias e os arquitectos terão de reflectir e apresentar soluções. Provavelmente haverá mudança nas tipologias mais comuns, para contemplar espaços para trabalho à distância. Por outro lado, estou seguro de que o aumento do teletrabalho determinará um incremento da vida fora dos centros urbanos.
Quanto aos escritórios, o aumento do teletrabalho levará a uma redução da densidade de ocupação, porém a área total necessária não deve diminuir. No caso do espaço público teremos certamente um crescimento dos parques urbanos.

Acredito que, a confirmar-se o montante dos fundos da União Europeia destinados à retoma da economia, Portugal registará um aumento significativo do investimento público, o que poderá ser determinante para a continuidade de muitas empresas de arquitectura. Mas (e, desde logo, para que assim seja) não podemos aceitar que se mantenha a regra do preço mais baixo como único critério na hora de selecionar os projectistas.

A atual crise é (e será) diferente das anteriores, mas temos de usar as lições aprendidas nessas outras crises, controlando custos, criando parcerias, sem esquecer a responsabilidade social que cada empresa também tem com os seus colaboradores. Temos de pensar no curto prazo, mas estar preparados para o médio e longo prazo.

NOTA: A TRAÇO manteve a grafia original do artigo

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