Opinião: “Por uma nova cultura, na organização do trabalho”

Por a 28 de Agosto de 2020

José Mateus
Arquitecto
Fundador do Atelier ARX e presidente da Trienal de Arquitectura de Lisboa

Entre os vários campos de reflexão que mais claramente emergiram do período de confinamento associado à pandemia de Covid 19, a organização do trabalho foi seguramente uma das mais importantes, através da experiência intensa do teletrabalho e da videoconferência, em alternativa ao trabalho no escritório e à reunião presencial.

Fosse pela inércia de hábitos há muito interiorizados, pela crença de que há perda de valor quando se substitui a presença física pela virtual, ou, no caso dos arquitectos, também pelo questionamento do valor do esquisso digital e da anotação sobre desenhos partilhados em videoconferência, até ao início de 2020 poucos estariam dispostos a adoptar aqueles métodos. Porém, hoje a percepção de muitos – como eu – é profundamente diferente.

Se um dos fenómenos observados ao longo da história da humanidade em períodos pós-catástrofe, como guerras ou terramotos, tem sido que se vivem momentos de progresso, seja ao nível da economia, da indústria, da vida social ou das ideias, com esta pandemia, não traduzir toda a experiência e aprendizagem a que fomos sujeitos, em novas fórmulas de organização do trabalho, seria um equívoco incompreensível.

É muito comum ouvir-se dizer que nem todas as actividades permitem uma abordagem, ainda que mista, do teletrabalho – o que é verdade – mas os argumentos a favor da adopção do teletrabalho, ainda que a tempo parcial, são inúmeros. Se por um lado a alternância do ambiente de trabalho reduz o cansaço derivado da rotina – com benefício para a produtividade, o facto de pais trabalharem mais próximo das escolas e das creches dos filhos – normalmente próximas de casa, reduz o impacto das deslocações na sua vida diária.
Além do aumento de bem-estar, a redução das deslocações significa uma entrega desse tempo à vida pessoal de quem trabalha. Num cenário de teletrabalho a 50%, facilmente esse tempo se traduzirá entre 100 a 200 horas por ano, por outras palavras quatro a oito dias de vida.

Se somarmos a esta redução aquela que está associada à generalização das reuniões em sistema de videoconferência, além dos benefícios privados, a redução da pressão sobre os transportes públicos, bem como da poluição acústica e por emissão de gases pelo tráfego automóvel, representam um benefício para as cidades extraordinário. E, em termos de empresas, uma necessidade inferior de espaço no dimensionamento das instalações, ou a possibilidade do trabalho em condições de maior desafogo.

Na minha opinião a reflexão deve ser mais ampla e a mudança deverá ir mais longe, adoptando o sistema de semanas laborais de 4 dias que, além dos benefícios associados às deslocações, assegura para as pessoas 1 dia útil para tratarem de assuntos pessoais – que reduz níveis de ansiedade – e aumenta o tempo de lazer. E, fundamental nas actividades criativas como a arquitectura, um período de pausa realmente eficaz para regenerar a capacidade intelectual, nomeadamente crítica, com impacto positivo na competência durante o período de trabalho.

No fundo, se pensarmos que o sistema actual vigora em Portugal desde os anos 70 do século XX, torna-se absurdo pensar que os avanços tecnológicos extraordinários relacionados com as ferramentas de trabalho, nomeadamente em termos de sistemas de comunicação, de desenho, de fotografia, de partilha de dados, etc. em nada vieram beneficiar a qualidade de vida de quem trabalha. A par disso, algo de extrema importância para o empresário: um trabalhador que usufrui mais tempo para actividades complementares ou para descanso, possui níveis inferiores de ansiedade e superiores de bem-estar, é mais produtivo. Na nossa área, é também um arquitecto mais criativo.

Na verdade, é essa a experiência que tenho vivido no meu atelier, onde adoptámos com grande sucesso o sistema da semana de 4 dias de trabalho em Novembro de 2018.
Hoje em dia, em cumprimento das recomendações do governo, esse sistema é cruzado com o teletrabalho, o que significa uma disponibilidade de espaço maior para cada arquitecto, com o impacto positivo inerente. Muito provavelmente, apesar de em termos metodológicos fundamentarmos o nosso trabalho em larga medida na construção de maquetas, adotaremos no futuro “pós Covid“ um sistema semelhante.

Segundo Joffre Dumazedier em Sociologia Empírica do Lazer (1974), foi em 1883 que o militante socialista P. Lafarge, escreveu o primeiro panfleto a favor do lazer dos operários, contra a mística do trabalho, abrindo sobre o socialismo uma querela que ainda perdura: o trabalho é um fim ou um meio?
Além da óbvia questão existencial, do debate gerado importa isolar uma segunda parte fundamental que emerge: a qualidade do lazer é indissociável, como causa-efeito, da qualidade do produto trabalho.

Passados 137 anos desde o texto de Lafarge e quase 50 desde que se adoptou em Portugal o modelo actual de organização do trabalho, parece ser de uma falta de visão surpreendente que tudo permaneça basicamente na mesma. Agora, após a experiência radical que todos vivemos associada ao Covid 19, que muito nos ensinou, seria uma trágica perda de oportunidade que tudo permanecesse na mesma.

NOTA: A TRAÇO manteve a grafia original do artigo

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