Opinião: Dream, Dare, Learn, Do

Por a 21 de Novembro de 2018

Maria Leonor Botelho, Associate Architect, Savills Portugal

O mundo contemporâneo pede-nos que façamos o update dos nossos skills continuamente.

Aprendemos em casa, na escola, na universidade, através da web, mas sobretudo no nosso espaço de trabalho, onde passamos grande parte do nosso dia. Modelos de ambientes de trabalho como FabLabs e Coworks demonstram que aprender em ambiente laboral torna-se uma experiência diária que nos oferece skills que precisamos para enfrentar o futuro.

Atualmente as empresas procuram fazer o seu próprio update, promovendo uma cultura de trabalho mais actual e aberta, criam espaços que unam habilidades e talentos de modo a permitir que uns aprendam com os outros. Talento atraí talento.

Esta é sem dúvida uma das grandes razões pela qual esta cultura se move cada vez mais para o mundo dos escritórios tradicionalmente mais conservadores. O desenvolvimento desta cultura de inovação dificilmente se pode comparar com os métodos de trabalho do passado. O progresso técnico, digital e a constante evolução das condições do mercado exigem um maior rendimento e uma formação contínua dos colaboradores. Chamemos a estes colaboradores trabalhadores do conhecimento.

O motor desta mudança é o processo de inovação da própria aprendizagem, que estimula o colaborador a tomar as suas próprias decisões a respeito da sua formação e capacitação. Tudo isto permite um desenvolvimento pessoal contínuo que por sua vez também se reflecte na cultura de aprendizagem da própria empresa que o acolhe. Um ambiente de trabalho que permite aos colaboradores desenvolver novos skills é a chave de sucesso num ambiente mais competitivo e cada vez mais exigente.

Novos estudos afirmam que a iliteracia do século XXI não surge dos que não conseguem ler ou escrever, mas sim daqueles que não conseguem aprender, desaprender e reaprender.

Estes programas de aprendizagem são na verdade de fidelização. Converteram-se em factor essencial para atrair e fidelizar colaboradores com talento, que assumem funções de liderança e garantem o sucesso da empresa a longo prazo. A mudança mais visível é que a formação continua já não consiste exclusivamente em seminários e cursos que apenas complementam o trabalho real. Existem vários modelos de trabalho e aprendizagem que demonstram que a combinação de medidas educativas e transferência de experiência, podem ser a combinação mais eficaz para o sucesso.

Os processos de aprendizagem de hoje esperam algo completamente novo dos colaboradores, não se trata apenas de transmitir habilidades e destrezas na prática diária, mas também reconhecer onde estão as capacidades e potencial latente em cada individuo. Já não se trata simplesmente de guiar os colaboradores, mas sim de ensiná-los a aprender.

Assim, cada pessoa não só enfrenta o desafio de continuar a desenvolver-se pessoalmente, como de se abrir a um cada vez maior trabalho colaborativo.

A aprendizagem a partir do trabalho de equipa adquire um significado completamente novo, facto que está a mudar as paisagens dentro dos escritórios de hoje e a criar um novo ADN corporativo.

De facto, esta descoberta demonstra a necessidade de explorar e desenvolver novas formas de processo de aprendizagem, que acompanhem o ritmo dos avanços técnicos e lancem nova luz sobre as noções tradicionais de hierarquia e liderança.

Está comprovado que a aprendizagem informal afecta todas as faixas etárias, sem fazer distinção. Estimula um maior rendimento dos jovens e permite aos menos jovens manterem-se actualizado, tal como Robert de Niro como Bem Whittaker no filme O Estagiário de 2015.

Uma característica transversal dos colaboradores do conhecimento Vs o colaborador intelectual clássico, é o elevado grau de flexibilidade, e a capacidade de reagir perante novas situações e desafios. Habitualmente aprendem que são capazes de desenvolver-se por iniciativa própria e identificam as oportunidades que surgem no seu ambiente em qualquer momento.

Vimos que os escritórios de hoje se caracterizam por uma intensa actividade de intercâmbio de conhecimento, com processos de aprendizagem que mudam através de métodos mais criativos e contínuos, e que a aprendizagem ocorre em contextos diferentes, então como aprenderemos no futuro?

Segundo Christine Kohlert autora do livro Space for Creative Thinking, a infraestrutura para os ambientes de aprendizagem do futuro será a fusão de verdadeiros mundos virtuais. Acredita que interação, cooperação e as novas tecnologias serão as forças motrizes da transferência de conhecimento. Este trabalho do conhecimento é a comunicação e colaboração criativa.

À medida que tentamos imaginar futuros ambientes de trabalho, observemos as profissões que já trabalham em rede de conhecimento há muito tempo. Os arquitectos são bom exemplo desta evolução, pois procuram e necessitam de actualizar constantemente as suas valências, face aos desafios técnicos e económicos.

No passado, visualizávamos projectos recorrendo a esboços desenhados à mão. Hoje, a mesma actividade combina um processo de múltiplas disciplinas intervenientes, combinadas digitalmente num processo complexo para atender inúmeras demandas crescentes, só possível por métodos de produção digital. Esta nova forma de trabalhar torna-se útil no contexto actual, e os seus efeitos e objectivos podem ser visualizados, mapeados e quantificados quase em livestream com os clientes.

A capacidade de visualizar não é somente uma necessidade para uma sociedade que publica o seu estilo de vida no Instagram, mas também por ser uma ferramenta crucial para reflectir ideias, definições técnicas em equipas multidisciplinares ou para organizar diferentes linhas de pensamento.

Começa quase sempre com um método arcaico de desenhos/esboços e maquetes, estendendo-se depois a grandes monitores tácteis com videoconferências integradas.

Birgit Gebhardt, trend researcher e autora de New Work Order – Creative Learning Environments, diz-nos que as pessoas gastarão muito mais tempo em atividades criativas. Graças às tecnologias digitais de interação e apresentação, é cada vez mais fácil e simples discutir e implementar ideias em geografias e culturas diferentes.

Nos ambientes de trabalho de hoje, habilidades como encontrar soluções individualizadas para clientes, traduzir ideias em diferentes contextos e implementá-las em protótipos viáveis, são skills que se tornaram importantes e valiosos, porque os métodos digitais são úteis tanto como tecnologias de apresentação como abordagem para resolução de problemas – resolver é a tarefa central dos trabalhadores do conhecimento.

A aprendizagem em ambiente laboral tem impacto na vida do quotidiano, rompendo os limites do nosso mundo físico real.

Lobbys de entrada de edifícios, anteriormente lugares vazios, estão hoje transformados em espaços onde as pessoas podem trabalhar.

Os modelos que originam estas mudanças são fornecido não só pela cultura urbana de consumo, como também não são novos. Na Grécia antiga, a partilha e disseminação do conhecimento nunca foi estático. Ocorreu em inúmeros espaços, individualmente e em grupos, sentado, em pé e andando.

Paddy Cosgrave, fundador do Web Summit partilhava no final da edição deste ano que a maior percentagem de reuniões de trabalho entre investidores e start-ups ocorreu entre o lobby do edifício que acolheu o evento, e os inúmeros jardins do Parque das Nações transformados em salas de reuniões exteriores dotadas com Wi-Fi.

 Qual o modelo ideal de escritório para os colaboradores do conhecimento?

Este tema é hoje mote para inúmeros debates e análises. Os espaços que têm reunido mais interesse são os que se baseiam no trabalho em rede, misturando conscientemente diferentes competências e talentos. Em consequência, terão de coexistir lugares arcaicos que permitam desenhar em paredes, lado a lado com salas semidigitais ou impressoras 3D.

Dotar espaços de trabalho desta maior valia que a partilha do conhecimento acrescenta às empresas é a oportunidade de trabalhar junto a pessoas de ideias objectivas numa colaboração mais competitiva que desencadeia sempre novas ideias e novas formas de aprender.

Melhora a colaboração, o pensamento criativo inspira a inovação, a interacção promove a experimentação, todas em conjunto fomentam uma comunicação transparente

Esta evolução do espaço de trabalho, converteu desconhecidos em verdadeiros companheiros de trabalho e que não têm necessariamente de trabalhar juntos ainda que gostem o fazer. São espaços utilizados por colaboradores conscientes de que necessitam de actualizar constantemente os seus skills e adquirir novas experiências.

Modelos contemporâneos de trabalho colaborativo são hoje exemplo de como a organização do espaço laboral fomenta e promove o crescimento pessoal e incorpora o princípio de aprendizagem no processo de inovação.

O seu êxito no âmbito da aprendizagem reflecte-se na sua reputação que habitualmente é documentada em plataformas sociais e comunidades virtuais. A próxima geração de colaboradores é mais fiel à comunidade que ao seu empregador, exigirão um ambiente de trabalho mais familiar, mas acima de tudo mais independente.

NOTA: O CONSTRUIR manteve a grafia original do artigo

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