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Uma casa de vidro em plena harmonia com o deserto

Um “manifesto”. Um conjunto de “mensagens inspiradoras”. Um “ponto de honra” ou uma “prova de vida”. Confesso que são várias as perspectivas possíveis para iniciar este texto, e todas elas são válidas. O que só pode ser genuinamente bom. Em rigor, o projecto da “Casa do Deserto” é tudo isto e, eventualmente, um pouco mais. A Guardian Glass, especialista no fabrico de vidro, propôs-se colocar à prova todas as potencialidades deste material e entregou aos eslovenos Ofis o desafio de conceber um projecto que permite desfrutar de uma casa eficiente durante todo o ano, perfeitamente enquadrada na sua envolvente e que se destaca pela ausência de toda a parafernália estrutural que caracteriza, normalmente, uma casa. [smartslider3 slider=11] O resultado é a “Casa do Deserto”, casa com pouco mais de 20m2 instalada em Gorafe, Granada (Espanha), uma das regiões mais extremas e duras da Europa, ou não fosse aquela uma região desértica localizada paredes meias com as paradisíacas estâncias de ski da Serra Nevada. À TRAÇO, por ocasião de uma visita à casa, a responsável comercial da Guardian Glass para o mercado francês e Ibérico explica que “este projecto começou com uma ideia de mostrar às pessoas aquilo com que o vidro pode contribuir para a eficiência energética dos nossos lares”. Ana Rodrigues revela que “a ideia era expor o projecto a condições extremas e aqui no Deserto de Gorafe as temperaturas podem oscilar entre -10ªC a 50ºC”. “Há uma amplitude muito grande de temperaturas”, salienta aquela responsável, que acrescenta que “outra premissa era não ter qualquer influência na envolvente, ou seja, não queremos interferir com a Natureza. Quando esta casa sair, a ideia é não haver qualquer rasto ou vestígio de alguma vez aqui ter estado. Queremos, sim, expor o vidro às altas e baixas temperaturas e monitorizar essa evolução, para que as pessoas percebam a importância do vidro quando sentem frio ou calor dentro de casa”. Para os responsáveis da Guardian Glass, “mesmo nos ambientes mais severos que possamos imaginar, é possível viver de forma cómoda e confortável se a escolha do vidro for a certa. Esta escolha afecta directamente a maneira como vivemos e desfrutamos dos espaços interiores. Influencia o grau da nossa comodidade e conforto, isolando-nos do ruído, do frio e do calor, o que também representa uma economia significativa no aquecimento e no ar condicionado”.
Desafios Um programa que assenta em condições extremas tem tudo para ser, ele mesmo, um desafio. Ana Rodrigues explica que “o desafio era grande e foram várias as surpresas que encontraram pelo caminho”. “Não há qualquer estrutura metálica, é o vidro que sustenta a casa e é a sua estrutura. O vidro encaixa em baixo e em cima e forma uma sandwich com duas estruturas de madeira”, diz, sublinhando que falamos de um vidro triplo com uma performance térmica muito elevada. “O vidro triplo é uma solução standard, um vidro comum. Não tanto na Península Ibérica mas ao nível do Norte da Europa é uma solução comum. Aqui foi instalado porque a amplitude térmica é grande. As nossas casas, em princípio, não estão expostas a estas variações de temperatura. Queremos transmitir que o vidro, enquanto material por si só, consegue assegurar esse isolamento térmico e esta casa mostra, ao cliente final, esse propósito. Queremos que percebam a importância do vidro na regulação do conforto”, enaltece. Longe de se deter no vidro como mais um simples elemento da janela, a casa explora as mais-valias potenciais do material que, para além de suportar o telhado e o tecto de madeira de contraplacado com todos os painéis fotovoltaicos, resiste aos ventos de forte intensidade do deserto e funciona em prol da eficiência térmica e acústica do interior da casa. A tecnologia de alta performance e eficiência energética é garantida por lâminas que proporcionam 52% de transmissão de luz e bloqueiam 75% da energia do sol.
Sustentabilidade Com um histórico significativo de projectos sustentáveis, a escolha do atelier Ofis Arhitekti acabou por ser uma opção “natural” para os responsáveis da Guardian Glass. O desenho, que resulta de um trabalho conjunto de várias especialidades liderado por Spela Videcnik, responde aos desafios actuais e futuros da arquitectura e da construção, “potenciando o respeito com o meio ambiente”. A casa responde aos mais elevados padrões de eficiência e isolamento, possui uma gestão automática com recurso a um sistema de filtragem de água, de produção energética e a um conjunto de painéis solares fotovoltaicos. Pela área estão distribuidos um quarto, zona de banho e copa-cozinha. O vidro das janelas fomenta a poupança energética, assegura um melhor isolamento térmico e acústico dos interiores e pode inclusivamente aumentar o nível de segurança face a tentativas de assalto ao interior do espaço. Em suma, segundo os arquitectos, converte a casa num espaço cómodo e confortável desde que haja respeito, aquando da escolha dos materiais, pelas necessidades específicas de cada caso. “No nosso escritório lidamos com projectos difíceis, mas o que mais gostamos é de criar pequenos objectos como este em ambientes extremos. Nos últimos anos construímos três abrigos alpinos em montanhas muito altas, com muita neve e estamos a testar a sua resistência e o bem-estar dos montanhistas que as usam. A casa de vidro no deserto é parte desta pesquisa, mas envolve um contexto, um clima e materiais muito diferentes”, sublinha Spela Videcnik. “Nos nossos projectos gostamos de pesquisar e testar diferentes tipos de materiais. O vidro é o herói dos nossos projectos e nós gostamos de desafiar os seus limites. Criar uma casa é brincar com as suas transparências e reflexos…”, assegura a arquitecta, que acrescenta que “o vidro – a separação transparente entre o interior e o exterior, tem um papel importante na arquitectura. Quando desenhamos a casa de alguém, seja uma casa de família ou um apartamento num bairro, tentamos estabelecer um relação forte entre o apartamento e o meio envolvente”. *A Traço viajou a convite da Guardian Glass