«A minha arquitectura provoca alguma irritação»

Por a 15 de Dezembro de 2006

siza vieira

Após a apresentação de mais um projecto em que está envolvido. Álvaro Siza Vieira falou com o Construir. O arquitecto explicou o programa Aquanattura, feito em conjunto com o grupo Unicer, e comentou ainda as já habituais polémicas que todas as suas intervenções geram. Explicou ainda que é um arquitecto da continuidade com projectos que se integram na malha envolvente.

Construir: Qual foi a principal dificuldade em projectar os novos edifícios para o projecto Aquanattura da Unicer?

Siza Vieira: Toda a fase de recolha de informação e de dados sobre os edifícios que já existiam, a recuperação de alguns, e ainda perceber onde poderiam ficar os novos equipamentos, foram as maiores dificuldades. Sobretudo devido aos prazos pretendidos. Outra das dificuldades foi a busca em recuperar o ambiente pré-existente daquele local especial que é Vidago. É um local que existe no imaginário das pessoas e foi necessário um cuidado especial pois serão introduzidos novos programas, devido às diferentes exigências dos tempos actuais.

Mas o que o motivou mais, foi interagir com edificado ou projectar os novos equipamentos?

Foram as duas coisas. Existe o edifício do Palace Vidago com qualidade, e depois existem outros com menos qualidade, a nível abstracto, mas com alguma qualidade arquitectónica. E esses também têm um grande sabor, uma grande autenticidade. Foram edifícios feitos por pessoas de Vidago e com participações pontuais de arquitectos de renome, como Ventura Terra por exemplo. Mas é tudo muito híbrido incluindo aqui e ali toques de “kitsch” mas com muito sabor. É realmente um trabalho muito complexo em termos de encontrar o tom correcto para aquilo que se pretende para os tempos actuais.

Quanto tempo demorou a solucionar os problemas que lhe foram apresentados para este projecto?

Fui arranjando as soluções à medida que o tempo ia correndo. Estou a trabalhar há mais de dois anos neste projecto. É um trabalho bastante complexo.

E, ao mesmo tempo, esteve envolvido noutros projectos. O que está a fazer a nível nacional, nos últimos tempos?

Ultimamente, estive bastante envolvido na concepção das obras para o Metropolitano do Porto. Em conjunto, ou trabalhando independente do arquitecto Eduardo Souto de Moura. Outro dos projectos foi o centro cultural Camilo Castelo Branco em Famalicão, que já está pronto. E ainda mais alguns em curso, como a fundação Nadir Afonso para Chaves, ainda dependente do programa Polis. Para além de ter trabalhado as marginais de Leça e de Vila do Conde

E quais os projectos a nível internacional?

Algum trabalho no Brasil, em Itália, em Espanha e ainda na Coreia do Sul.

E como está a questão do passeio do Prado em Madrid depois de toda a polémica levantada à volta da sua intervenção?

É uma situação resolvida. O projecto vai avançar com alterações muito ligeiras, sendo um trabalho feito em conjunto com arquitectos espanhóis.

Mas quase todas as suas intervenções geram polémica. As críticas à “nova” avenida dos Aliados no Porto, ou mesmo a Baronesa Thyssen-Bonermisa a querer amarrar-se às árvores do passeio do Prado, em Madrid, por causa do seu projecto?

No caso de Madrid é mais uma questão política. E está bloqueado apenas enquanto a circular de Madrid não estiver pronta. Só por isso. E em relação à Baronesa foi sobretudo uma questão política, já que estão a decorrer negociações entre a Baronesa e a colecção do Museu e da sua venda ao Governo espanhol.

Em relação a outras obras, porque acha que a sua arquitectura ou se gosta ou se odeia? Tem essa noção?

A minha arquitectura, tanto quanto eu posso perceber, gera de imediato uma polémica a cada novo projecto. Parece que nunca fiz nada, parece que pensam que aquilo que faço é uma incógnita terrível. Isso tem muitas explicações, e claro, a cada projecto com visibilidade dá origem a maior preocupação com a intervenção. Mas por exemplo, existiu uma grande polémica com o restauro do jardim da rotunda da Boavista, mesmo antes de alguém saber qual era a intervenção. Há grupos muito activos, mas por vezes a sua actividade poderá não ser muito saudável. E dou-lhe o exemplo de quando saíram os taipais das obras da Avenida dos Aliados, no Porto, estava presente e ouvi elogios ao trabalho feito.

Acha que é medo de desconhecido, ou pouco respeito pela qualidade da arquitectura?

Admitindo que eu faço arquitectura de qualidade, a minha arquitectura provoca irritação…

…mas só em Portugal…

Não só. Também em Espanha existem polémicas, e não estou a falar de mim, mas em Portugal existem mais. Olhando para alguma da construção que se faz em Espanha, não há espaço para se discutir tudo, e em Portugal há.

A dimensão da sua obra é internacional. É o arquitecto português mais conhecido internacionalmente. Como arquitecto de nível mundial, como olha para a arquitectura portuguesa?

Há vários, aliás, muitos arquitectos portugueses que são conhecido internacionalmente. Não sou o único. Muitos são gente conhecida que ganha concursos e é publicada. O isolamento acabou. E actualmente há mais intercâmbio, que surgiu com o 25 de Abril. Em respeito à arquitectura que se faz em Portugal não se pode generalizar, mas de um modo geral está afectada profundamente pelo muito mau uso do território nacional. Tem a ver com a muito recente tradição de planeamento, e com a utilização das orlas marítimas. Até em Espanha, onde tem um panorama europeu de uma arquitectura de qualidade, tem também uma orla marítima muito má. E em Portugal as cidades do interior começaram a ficar desfiguradas, especialmente nos últimos anos. Mas mesmo em França e Itália onde os centros históricos estão muito bem cuidado existirem periferias muito más.

Mas esta nova geração poderá alterar essa forma de planear?

Irá continuar a haver bons e maus arquitectos. Em Portugal há trinta e tal escolas de arquitectura, umas são boas, outras não. E há muita gente a ser formada. Há sobretudo uma quebra de qualidade média quase impossível de evitar quando se passou de um deserto de construções para um “boom” de edificações. Não é fácil que aconteça com qualidade suficiente.

Mas concorda que os grandes arquitectos portugueses quando constroem em Portugal nunca, ou raramente, o fazem para a classe média, ou para projectos sociais?

Sim, há uma tendência a considerar esse tipo de obras como menores. E nisso os arquitectos não deixam de ter a sua responsabilidade. Esses projectos, em geral são menos atractivos, embora para mim sejam dos mais interessantes que há. Muitos desses projectos são feitos por concursos e é difícil a quem tem muito trabalho estar a arriscar um grande período de trabalho na tentativa de conseguir vencer esses concursos. Mas, geralmente, há um mau acolhimento desse tipo de arquitectura. Quando fiz a Malagueira, em Évora, foi dos projectos mais atacados, disseram que aquilo não era um projecto social, mas sim intelectual e elitista. E, apesar de nunca terem sido construídos os equipamentos daquele projecto, ele funciona. Mas realmente nunca mais fui solicitado para esse tipo de trabalho, embora há pouco tempo tenha acabado o projecto na Bolsa do Porto, que após trinta anos, está pronto.

Falando do Porto, como vê as obras de Rem Koolhaas, ou os projectos de Norman Foster e Renzo Piano, entre outros, anunciados para Lisboa?

Encaro com normalidade. Já que nós também fazemos obras lá fora. Claro que alguns agradam-me outros não.

…e a Casa da Música agrada-lhe?

Sim, sim, está nos antípodas daquilo que faço, mas é um projecto muito bem conseguido, e considero-o um dos projectos mais bem conseguidos do Koolhaas.

Mas por vezes levantam-se algumas vozes críticas pelo convite a arquitectos estrangeiros com honorários muito elevados…

Muito caro não quer dizer nada. Depende de um projecto e de quem o faz exaustivamente, ou de quem o faz sem grande detalhe à escala 1:100 e depois manda outro fazer. Quando se chama um arquitecto de qualidade, sobretudo, estrangeiro não se espere que ele vá trabalhar abaixo da tabela de pagamentos portuguesa. Honorários muitos baixos geram derrapagens na construção. O caso da Casa da Música é exemplar, devido à grande derrapagem orçamental. Eu não concorri porque sabia que não tinha tempo suficiente para o fazer, bem como a verba destinada, era um preço impossível para a realização de um projecto daquela natureza. Daí ter desistido. Na altura disse que nem pelo dobro se faziam, e no final acabou por custar 20 vezes mais.

Mudando de assunto, existe algum tipo de arquitectura contemporânea que siga com mais atenção, em Portugal ou no estrangeiro?

Há coisas muito diferentes a serem feitas, mas por exemplo existe uma arquitectura média de grande qualidade em países com a Noruega ou a Dinamarca. E onde se faz algo que, em Portugal se perdeu com o tempo, que é a manutenção dos edifícios. Mas em termos gerais há uma dualidade muito clara que é considerar que a evolução da arquitectura é de continuidade, independentemente da evolução técnica, e depois a outra ideia muito corrente na arquitectura que é o conceito de tábua rasa, que desencadeia um movimento autónomo, que é muito a posição teórica de Koolhaas. Eu artilho muito mais a ideia de continuidade, mas que é conectada com algum conservadorismo. Pois, por exemplo o resultado do movimento de vanguarda dos anos 30 e 40 que deu grandes obras de arquitectura mas não, em relação à cidade, grande resultados. Continuo a pensar que a linha de continuidade é a mais acertada.

Qual o edifício ou projecto que gostava de fazer que ainda não fez?

Não tenho essa frustração. Cada vez que aparece um novo projecto é uma nova experiência e é muito estimulante.

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