Vila Franca aposta na cultura abaixo do solo

Por a 20 de Outubro de 2006

Inserido numa malha urbana densa, e num terreno com um forte declive topográfico, o Centro Cultural do Bom Sucesso materializa-se num edifício que se desenvolve no subsolo, permitindo utilizar a cobertura de uma forma lúdica, sendo a mesma pontuada por vazios que funcionam como pátios complementares aos núcleos do equipamento

A localidade de Arcena, em Vila Franca de Xira, vai receber um novo equipamento projectado pelo ateliê Miguel Arruda Arquitectos Associados, que se caracteriza por ser construído abaixo do solo. O Centro Cultural do Bom Sucesso será implantado numa área caracterizada pela equipa projectista como «carente de intervenção e com problemas urbanos complexos». Inserido numa malha urbana densa, com um espaço envolvente reduzido e com acessibilidades complicadas, o mesmo apresenta ainda um forte declive topográfico, compreendido entre dois arruamentos paralelos que limitam o terreno a norte e a sul, respectivamente a Rua da Liberdade e a Rua da Fonte de São Romão, e por construções de uso habitacional implantadas a este e oeste. Para além das condicionantes já descritas, o ateliê teve de contar com uma préexistência no subsolo, classificada pelo Município, as Minas de São Romão, que correspondem ao que resta de um antigo conjunto conventual que existia nas imediações. Tendo o seu início na retaguarda da Rua da Fonte de São Romão, a préexistência, que consiste num túnel, tem ao longo do seu percurso, que atravessa o terreno de intervenção no sentido Noroeste/Sueste a cerca de um metro de profundidade, duas comunicações com o exterior que se materializam na forma de dois cilindros rematados por uma campânula para iluminação e ventilação. No culminar desta estrutura encontra-se uma abertura à superfície, que se prolonga na vertical até um espaço circular, rodeado por bancos escavados no terreno, que segundo os autores do projecto, se julga «ter servido para a prática religiosa da oração e meditação por parte dos frades do antigo Convento do Bom Sucesso». Contudo, estas características foram encaradas pelo gabinete como um desafio, e tirando partido das mesmas, criaram o edifício do centro cultural.

Cobertura «ajardinada»

Procurando tirar partido do declive e da diferença de cotas, e com o objectivo de reduzir ao mínimo o impacto de uma nova construção em altura, numa malha urbana já densa, o gabinete optou por projectar o edifício abaixo do solo, de forma a aproveitar a cobertura para espaço público e de lazer, de onde «se poderá desfrutar de uma vista privilegiada sobre o Tejo», revela a memória descritiva da proposta. Desta forma, o resultado foi um edifício sob um manto verde vegetal, em torno de espaços (pátios) interiores, que servem de complemento aos vários núcleos do equipamento, resultando numa composição que será evidenciada por iluminação nocturna. O espaço de cobertura, une desta forma a malha urbana uma vez que possibilita a ligação entre as duas ruas periféricas, oferecendo percursos materializados em madeira e betão, que são complementados com áreas de estadia que preenchem os vazios resultantes da construção no subsolo.

Organização espacial

Com uma área de 1745 metros quadrados, o programa solicitado foi organizado em torno dos pátios, que contemplando escalas diferenciadas funcionam como cenários para os diferentes espaços do complexo, e que, de acordo com a equipa projectista, «resolvem problemas de salubridade decorrentes da construção em subsolo e possibilitam a entrada de luz necessária ao seu uso». Em termos estruturais, o auditório e o Pátio das Colectividades tomam essa funcionalidade. O facto de o vidro que separa o átrio de entrada do Pátio das Necessidades ser recolhido, possibilita que esta área exterior possa servir como um espaço de palco, encontrando-se na zona posterior a essa os espaços necessários ao seu funcionamento, nomeadamente, sanitários, camarins e espaços técnicos. Desta forma, o espaço denominado de Pátio das Colectividades configura uma recepção, uma sala de reuniões e um posto médico. Na área localizada a poente do corredor de entrada, encontram-se as áreas administrativa e o Núcleo Museológico que confinam com um pátio de apoio. Com o objectivo de conseguir um rigoroso controlo do custo final da obra, a equipa projectista optou por relacionar directamente a componente estética com a solução estrutural, assumindo, sempre que possível o betão à vista com cofragem cuidada para acabamento de paredes. Em termos de pavimentos, os mesmo serão em betonilha afagada colorada, e as restantes superfícies que se relacionam de uma forma directa com os pátios são em vidro com fixação por pontos. Segundo o gabinete autor do projecto, «o objectivo que se perseguiu nesta proposta foi o equilíbrio constante entre espaços abertos e fechados, dando prioridade aos primeiros e à forma como estes se relacionam com a envolvente e com a população», sendo o resultado «não tanto um edifício mas sim um espaço» de encontro da comunidade.

ficha técnica do projecto

Cliente: Câmara Municipal de Vila Franca de Xira

Arquitectura: Miguel Arruda Arquitectos Ass./ Arqtº Miguel Arruda

Coordenação: Arqtº Pedro Pereira

Colaboração: Arqtº João Lisboa, Arqtº Pedro Nogueira, Arqtº Pedro Dias

Imagens/Simulações 3D: Designer Catarina Lino Gaspar

Arquitectura Paisagista: Atelier da Paisagem, Proj. de Arquitectura Paisagista ,Lda

Contenções periféricas/ estrutura, águas e esgotos, instalações de gás, térmica, acústica: DX2 – Engenharia

Instalações eléctricas, telecomunicações e segurança: Energia técnica – Gabinete de Engenharia Lda.

AVAC: Eng.º António Silva Pratas

Cosntrutor: Costa e Carvalho, SA – Empreiteiro de Obras públicas – Construção Civil

Localização: Alverca – Vila Franca de Xira

Área: 1745 m2

Data projecto: 2006

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