AT.93 projecta edifício com dois conceitos

Por a 20 de Outubro de 2006

A Escola Superior de Saúde de Aveiro caracteriza-se pela criação de dois blocos que se comunicam através de passadiços e que resultam da conjugação de dois conceitos distintos, tendo o tema das barreiras arquitectónicas e da acessibilidade como uma das preocupações no seu desenvolvimento

A Universidade de Aveiro vai receber um novo edifício onde será instalada a Escola Superior de Saúde (ESS), e que conta com a assinatura do ateliê de arquitectura AT.93. O gabinete foi o vencedor do concurso público para a criação do equipamento, que se integra em área regulamentada pelo Plano de Pormenor do Castro do Campus Universitário da Universidade de Aveiro, mais precisamente nos lotes L5 e L7. De acordo com o gabinete autor do projecto, o mesmo resultou da conjugação de dois conceitos distintos para os dois blocos existentes, o que originou uma «tensão criada pelas diferentes opções» e «uma riqueza formal que reforça a interpretação programática», no entanto, é de referir que «a vontade expressa pela Universidade de Aveiro» de que os edifícios fossem revestidos maioritariamente por tijolo de face à vista, foi uma premissa a ter em conta no desenvolvimento do projecto. Desta forma, a solução passou por dois volumes distintos que valorizassem no seu todo o uso deste revestimento, e ao mesmo tempo identificasse este equipamento como um exercício de pesquisa conceptual aliado a uma característica de cariz polivalente, «que entendemos necessária a qualquer equipamento público», revela a equipa projectista.

Volumes complementares

Os dois volumes distintos, denominados de «Bloco dos Docentes» e «Bloco dos Alunos», contemplam programas distintos que servem, como o próprio nome indica, públicos também eles distintos. Relativamente ao «Bloco dos Docentes», em termos de implantação, o mesmo caracteriza-se por um monobloco dotado de vãos estreitos e altos que no seu todo conferem um aspecto que, segundo os autores do projecto, «não fracciona o volume». De acordo com o gabinete, a este bloco, «foi removido o miolo», criando desta forma um átrio de entrada com triplo pé direito e um pátio interior de carácter longilíneo, que é de uso reservado aos docentes. Deste espaço caracterizado como «interior exposto», nascem dois passadiços que atravessam 18 metros, possibilitando o acesso ao «Bloco dos Alunos». A subtracção feita ao «Bloco dos Docentes» tem como cobertura uma superfície transparente, «com o controlo necessário a uma climatização eficiente», revela a memória descritiva da proposta, repondo desta maneira o volume subtraído e proporcionando um efeito de transparência e luminosidade no espaço interior. Os passadiços que fazem a ligação entre os dois blocos, são também materializados neste material transparente, denominado de ETFE. Relativamente aos «Bloco dos Alunos», este contrasta com o anterior por um movimento que tem origem no «seu jogo volumétrico de fachadas e coberturas», lê-se no documento da proposta. Este movimento, tem como base a malha programática retirada do programa da escola Superior de Saúde, que ao nível interior se reflecte nos corredores e tectos do bloco. De acordo com os autores do projecto, «tornou-se obsessiva nesta fase a vontade de absorver as potencialidades que esta riqueza formal pode proporcionar nas mais diversas dimensões espaciais, pelo que rapidamente se tornou uma condicionante positiva pela diversidade e ao mesmo tempo simplicidade». Assim, o volume apresenta um inclinar e reclinar das fachadas, «numa harmonia programática», que confere outra escala e outro conceito ao revestimento de tijolo de face à vista. O movimento de harmónio é ainda reforçado pela introdução de corpos mais estreitos e revestidos a grelhas metálicas, que coincidem espacialmente com os acessos verticais e com as zonas de serviço.

Distribuição programática

Em termos de caracterização e distribuição funcional do projecto, a solução aposta numa divisão pelos dois blocos dos grupos programáticos. Desta forma, com frente para o arruamento B, no Lote 7, encontra-se o «Bloco dos Docentes», que contempla um grande átrio de recepção à escola, bem como todos os gabinetes dos professores, as áreas de administração e serviços, auditórios, biblioteca e armazéns. No piso 0 do volume, destinado aos professores da escola de saúde, para além da entrada principal com triplo pé direito, o revestimento transparente possibilita visualizar os passadiços cobertos entre os dois blocos, o que segundo o gabinete AT. 93, transmite «de imediato uma percepção mais abrangente do conjunto». Do átrio central acede-se à escadaria principal e à biblioteca e área de estudo, localizadas na ala esquerda do volume, bem como a um auditório, na ala direita do bloco, com capacidade para cerca de 150 pessoas. O espaço destinado à biblioteca desenvolve-se numa zona mais reservada e contempla dois open spaces, que garantem a versatilidade necessária a um espaço com estas características. No primeiro piso do «Bloco dos Docentes», encontra-se outro auditório com a mesma capacidade do existente no piso inferior, caracterizado-se os dois pela existência de uma plataforma criada sensivelmente a meio que garante o acesso a utentes com mobilidade motora condicionada. Este piso contempla ainda os gabinetes destinados aos professores, que se distribuem ao longo de um átrio central «com amplo pé direito iluminado por luz natural», explica a memória descritiva. Este átrio central é pontuado por salas de reuniões, criando desta forma zonas residuais que segundo os autores da proposta, «podem ser usadas para convívio, exposições, apresentações, entre outras actividades». Em termos de vãos, a sua disposição pelos alçados do volume segue uma regra que é baseada na métrica dos gabinetes , sendo confrontada e ajustada à métrica do revestimento exterior de tijolo de face à vista. Nos dois topos do bloco, junto às escadas, situam-se as instalações sanitárias gerais e de deficientes, e no topo noroeste foram ainda criadas três salas de reunião e gabinetes de apoio. O ultimo piso deste bloco, piso 2, é idêntico ao piso 1, e contempla no seu topo sudoeste a zona destinada à administração e conselho directivo, e no noroeste o centro informático, dois gabinetes e átrio de convívio. Paralelo ao «Bloco dos Docentes» encontra-se o «Bloco de Alunos», que ocupa o Lote 5 e vai albergar todas as salas de aulas, laboratórios e zonas de preparação, entre outros. A este bloco acede-se através dos arruamentos adjacentes, tanto ao nível do piso 2 como do piso 3, por passadiços exteriores cobertos que fazem a ligação entre os dois edifícios da escola. Em planta, o volume caracteriza-se por um corredor longitudinal ao longo dos três pisos, que divide os espaços de laboratório do de salas de aulas. Ao nível do piso 0, o volume contempla uma clinica no topo sudoeste que embora esteja «conjugada com as linhas estruturais geradoras do projecto», se prevê que seja para funcionar de modo autónomo, explica a equipa projectista. A clinica que é composta por recepção, consultórios, salas de terapia, e compartilha com a escola um tanque de hidromassagem, balneários, ginásio e rouparia, perfaz uma área de ocupação de cerca de dois terços do piso, sendo a restante área ocupada por cinco salas de aula e sete laboratórios. O piso 1 e 2, retomam a génese conceptual do bloco através de um corredor central que divide longitudinalmente os laboratórios das salas de aulas. Desta forma, cada piso conta com dez laboratórios, sete salas de aulas, e instalações sanitárias, estas últimas localizadas junto à chegada dos passadiços. Neste volume, é feito um aproveitamento do piso entre a laje de esteira e a cobertura de forma a transformá-lo num piso técnico, onde serão colocados os diversos equipamentos e infraestruturas de ventilação e tratamento de ar.

Acessibilidades

Segundo a equipa projectista, este edifício «é um exemplo a nível de acessibilidades para os utentes de mobilidade condicionada ou reduzida», estando por isso equipado com os elevadores e rampas necessários, bem como com instalações sanitárias com dimensionamento e disposição interna de acordo com os regulamentos em vigor. Relativamente aos materiais escolhidos para a proposta, o gabinete refere que para os interiores, «foram privilegiados os materiais de revestimento de comprovada durabilidade e de fácil manutenção». Para os exteriores foi utilizado o tijolo de face à vista tipo «Vale de Gândara», e o sistema de revestimento em almofadas de ETFE.

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