Um hobbie chamado Arquitectura

Por a 11 de Agosto de 2006

Como nasceu o Baixa – Ateliê de Arquitectura?

Como nasceu o Baixa – Ateliê de Arquitectura? Nuno Vidigal (NV) – Eu e o Pedro Ravara fomos colegas na faculdade e a partir de certa altura tivemos a intenção de trabalhar juntos. Quando terminámos o curso surgiu um trabalho com alguma dimensão e que provocou o início do trabalho profissional em conjunto. Não formámos logo empresa porque o Pedro foi para Macau durante um período de tempo, mas após o seu regresso, em 1991, formámos o ateliê.

É difícil manter e gerir um ateliê em Portugal? NV – Eu acho que sim, porque, como fazemos o que gostamos, é uma profissão que é entendida como um hobbie, e portanto dedicamo-nos a ela como tal, e isso tem as suas vantagens e as suas desvantagens.

Parte da encomenda do ateliê são concursos, públicos e por convite. Como vêem os concursos em Portugal? Pedro Ravara (PR) – Nós participamos em muitos concursos públicos mas perdemos a maior parte deles. Temos também participado em concursos limitados, a convite de empresas, onde acabamos por ter mais sorte, mas não acho que exista uma concorrência desleal. NV – A nossa crítica é que hoje em dia exigem um investimento muito grande da parte do ateliê para depois serem uma verdadeira lotaria. Isto porque, como existe pouco trabalho, são muitos os concorrentes aos poucos concursos que existem, e os factores de selecção são muito aleatórios. PV – Quanto mais personalizada for a proposta mais difícil é de o júri a poder ver. Ou seja, se a proposta for muito esquemática e não apresentar soluções formalizadas, tem mais hipóteses de ganhar do que as que apresentam mais «arquitectura». Quanto menos trabalho se tiver mais hipóteses são as de ganhar, e nós temos a tendência de desenvolver mais as propostas e acabamos por ser prejudicados.

Ambos dão aulas em universidades portuguesas. Como vêem o papel da Ordem dos Arquitectos nesse âmbito? PR – A Ordem não tem papel nenhum, quer ter com aquelas acreditações dos cursos que eu nem sei se fazem algum sentido, mas deveria ser uma ordem profissional e não académica.

É viável a quantidade de arquitectos que saem anualmente das universidades? NV – Eu tenho uma visão muito própria sobre isso. O arquitecto é, na nossa sociedade, visto como a pessoa que faz projectos para casas ou edifícios, e portanto, por causa disso mesmo, têm um papel pouco activo na sociedade. Por exemplo, os engenheiros a grande maioria não faz engenharia, gere empresas, faz investigação, existem engenheiros em todo o lado até na política, portanto, por serem muitos têm essa capacidade de se introduzirem na sociedade e criar raízes na mesma, o que faz com que essa profissão seja reconhecida. Hoje em dia com esta proliferação de arquitectos, começam a aparecer em muitos sítios onde não seria previsível ter arquitectos a trabalhar, desde empresas de construção, empresas de fiscalização, entre outras. E isso é salutar, porque obriga a arquitectura enquanto classe a ir procurar outras saídas que não a execução de projectos, e ao mesmo tempo ao diluir-se na sociedade vai provocar um aumento da consideração do seu papel. Mas isso não será uma falha do próprio ensino que incute aos estudantes de arquitectura que arquitectos são para projectar? PR – As faculdades de arquitectura têm a tendência de formar arquitectos de ateliê e de facto na faculdade de arquitectura, onde dou aulas, existe a tendência de formar estrelas de arquitectura, formar estudantes para ganhar menções honrosas em concursos. O que acontece é que todos são formados com o espírito de serem arquitectos projectistas, e isso é a ambição de qualquer estudante de arquitectura e de qualquer escola de arquitectura do nosso pais. Na minha opinião deveriam existir especializações após a licenciatura para terem outras saídas profissionais, o que na engenharia já existe. As faculdades de arquitectura não oferecem isso, e essa poderia ser uma saída para muitos arquitectos.

São autores do Plano de Pormenor das praias equipadas da Costa de Caparica. Em que consiste o Plano e em que fase se encontra? PR – Neste momento está em fase de discussão pública, e nem sabemos se alguma vez vai ser aprovado assim, ou se teremos de fazer alterações relativamente grandes. Existem vários planos para a Costa de Caparica, e o nosso é mais um projecto paisagístico, que por sua vez está a ser feito com o arquitecto João Gomes da Silva, da Global.

Acreditam nas figuras de planeamento? PR – Temos de acreditar, mas existem críticas a fazer a alguns planos. Sem eles, o caos ainda era maior, e tem de se ter em consideração que os planos existem à pouco tempo e por isso é difícil reestruturarem aquilo que foi desenvolvido durante tanto tempo sem a utilização dos mesmos. Como está previsto na lei, de tempos em tempos devem ser revistos para irem colmatando as alterações do próprio território NV – São opções, e podem ser alvo de críticas, mas são figuras importantíssimas.

Os arquitectos têm, em Portugal, um papel interventivo no desenho das cidades? NV – Eu acho que têm, mas para o bem e para o mal. Se são responsáveis por coisas muito boas, também são co-responsáveis por grande parte das periferias de Lisboa, que toda a gente diz muito mal mas que ninguém sabe como é que aquilo surgiu. PR – Os planos de pormenor ao contrário dos planos directores municipais não são feitos só por arquitectos, são executados por equipas grandes e com diversos intervenientes e comissões constituídas para o efeito, que os torna muito participados, o que de facto origina problemas. No entanto, os problemas não são só dos arquitectos e das instituições, mas também das pessoas que andam na rua, e que em fase de discussão pública podem colocar requerimentos e não o fazem. Logo, se o país está como está a culpa é de toda a gente, porque de facto nós não temos um espirito cívico de participação muito grande.

Faz-se boa arquitectura em Portugal? NV – Aqui no ateliê fazemos, mas de uma forma geral Portugal não é o espelho de uma boa arquitectura, bem como de uma boa construção, agora também não sabemos se ela é feita por arquitectos ou não. De qualquer forma a qualidade da construção em Portugal é má logo à partida. Se houvesse qualidade construtiva só por si a arquitectura já tinha outro impacto.

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