Ruy Athouguia: Um fiel modernista

Por a 11 de Agosto de 2006

Portugal perdeu um marco da arquitectura moderna. Ruy Jervis Athouguia, um modernista em estado puro, pertencente à geração moderna portuguesa e caracterizado pelo domínio das questões espaciais, pelo rigor e depuração das formas e pelo uso inovador dos materiais, faleceu aos 89 anos, no mesmo ano em que uma das suas obras mais emblemáticas, a Fundação Calouste Gulbenkian, foi reconhecida pelo IPPAR como monumento nacional

Aos 89 anos de idade, faleceu um dos expoentes da arquitectura modernista portuguesa. Ruy de Sequeira Manso Gomes Palma Jervis d’Athouguia Ferreira Pinto Basto, ou Ruy Athouguia como era reconhecida a assinatura dos seus memoráveis trabalhos, nasceu a 1 de Janeiro de 1917 em Macau, mas ainda criança veio para Portugal, onde se formou e exerceu a sua profissão. Filho de um oficial da marinha, Cascais foi o local que elegeu para viver, porque dizia-se incapaz de viver sem sol à sua volta. Iniciou o curso de arquitectura em Lisboa, mas foi na Faculdade de Belas Artes do Porto que se diplomou em 1948, aos 31 anos de idade. Numa entrevista ao Jornal Público em 1999, Ruy Athouguia explicava, «havia um arquitecto, que tinha por alcunha o Cunha Brutos que me chumbou sucessivamente em desenho arquitectónico. Com aqueles chumbos disse à minha família que não podia ser, que ia para o Porto». Influenciado pelas obras de Frank Lloyd Wright, Alvar Aalto, Mies van der Rohe e Le Corbusier, um ano após a conclusão da licenciatura, em 1949, inicia a sua carreira assinando o projecto do Bairro das Estacas, em parceria com Sebastião Formosinho Sanchez, e a Escola Primária do Bairro de São Miguel, ambas em Lisboa. «Quando acabei o curso, era um jovem que estava todo virado para ir por aí por diante. Não olhar para trás. Apetecia-me abrir as asas e voar», referiu Ruy Athouguia na mesma entrevista.

Bairro à sua imagem

O Bairro da Estacas, em Alvalade, foi uma das primeiras obras do arquitecto, e uma revolução no entendimento urbanístico da capital. O conjunto de habitação económica concluído em 1955, caracteriza-se por assentar os blocos habitacionais horizontais sobre pilotis (estacas), estendendo assim as ruas e jardins por debaixo dos blocos. Com esta obra, Ruy Athouguia foi destinguido com o Prémio da Bienal de São Paulo. Do seu trabalho destacam-se ainda a Escola Secundária Padre António Vieira, os edifícios circundantes da praça de Alvalade, vários projectos de habitação em Cascais bem como a Torre do Infante, e a Fundação Calouste Gulbenkian, que projectou em parceria com Pedro Cid e Alberto Pessoa, e com os paisagistas António Viana Barreto e Gonçalo Ribeiro Telles, e que ganhou em 1975 o Prémio Valmor. Aos 86 anos de idade, Ruy Athouguia viu a sua carreira reconhecida através da exposição «Arquitectos da Geração Moderna: Ruy Jervis d’Athouguia», organizada pela Ordem dos Arquitectos e comissariada pelos arquitectos Ricardo Carvalho e Joana Vilhena, que um ano mais tarde, em 2004, lhe valeu o Prémio da Associação Internacional de Críticos de Arte, do Ministério da Cultura.

Geração marcante

Graça Correia Ragazzi fez a sua tese de doutoramento tendo por tema «Ruy Jervis d’Athouguia – A modernidade em aberto». Após anos de investigação sobre a vida e obra do arquitecto, bem como conversas com o mesmo e visitas ao seu ateliê no Bairro Alto, a arquitecta refere que, «Ruy Athouguia pertence a uma das melhores gerações de arquitectos do século, aquela que integra os que nasceram por volta de 1920». Pouco dado a tertúlias nem empenhado politicamente, Ruy Athouguia dividia-se entre o trabalho e a praia, em Cascais, e de acordo com Graça Ragazzi, «a fragilidade que advertimos na imagem do arquitecto, desmente uma sólida perseverança de quem sabe o caminho que quer percorrer». Aliado de factores políticos, trabalha mais livremente com clientes privados, «sendo no entanto nas encomendas públicas que se torna visível a síntese da sua proposta de modernidade». Graça Ragazzi salienta ainda a sensibilidade formal e visual do arquitecto, bem como a sua cultura arquitectónica, sublinhando que, «tratou-se sobretudo de uma figura ímpar em Portugal, já que, sendo contemporâneo de Fernando Távora e de Álvaro Siza, segue um caminho singular, inflexível na sua convicção; curiosamente um caminho retomado na geração seguinte por Eduardo Souto Moura, que apesar de não o conhecer, explora as mesmas bases neoplásticas da arte moderna que Athouguia introduziu e sedimentou de forma consistente em Portugal. Encarando «de modo exemplar» a distância entre a qualidade e o reconhecimento, «mitificou certos valores até convertê-los em modelos a seguir».

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