Argélia «abre portas» às empresas portuguesas

Por a 29 de Julho de 2005

Argélia

O mercado ferroviário, rodoviário e as barragens contemplam um ambicioso plano de investimentos, ao qual estão a concorrer empresas portuguesas e já com resultados visíveis

PUB

«O quadro legal está criado. As condições políticas são propícias. As oportunidades existem. Falta agora concretizá-las.» O mote lançado pelo Presidente da República, Jorge Sampaio, na abertura do seminário económico que decorreu na Argélia, parece começar a surtir efeitos.

A Teixeira Duarte é o mais recente exemplo da aposta naquele país africano, depois de anunciada a adjudicação de uma obra hidráulica avaliada em cerca de 150 milhões de euros. A construtora, que irá desenvolver os seus trabalhos em parceria com a empresa argelina ETHRB, garante assim uma significativa presença no mercado argelino. A obra, que deverá estar concluída dentro de 32 meses, contempla a construção de 80 quilómetros de condutas para transferência de água desde a barragem de Clef à zona Oeste do território. Mas os exemplos sucedem-se.

Mota e TD juntas

Na realidade, a presença de empresas portuguesas na comitiva que viajou até à Argélia é paradigmática do interesse que aquele país está a despertar em termos de oportunidade para investir, sobretudo para as empresas ligadas ao sector da construção, uma área que representa cerca de nove por cento do produto interno bruto do país. Numa fase em que o investimento público em Portugal atravessa um período conturbado, a diversificação dos mercados volta a ser encarada como uma alternativa, sobretudo havendo a noção das áreas onde é necessário investir.

À margem da referida adjudicação, a Teixeira Duarte chegou também a acordo com a Mota-Engil para o estabelecimento de um consórcio com vista a obter uma estrutura sólida para concorrer aos projectos lançados pelo governo argelino em matéria de ferrovias. Até 2009, o plano de investimentos públicos anunciado prevê cerca de 7 mil milhões de euros para a modernização dos caminhos-de-ferro na Argélia pelo que as construtoras, através das suas participadas Somafel e Ferrovias, estão já a consertar esforços para assumir uma forte posição, não só naquele projecto como em outros que possam surgir.

Dentro deste conjunto está a intenção de investir cerca de seis mil milhões de euros para conclusão de projectos como a auto-estrada Este-Oeste ou a reabilitação de aproximadamente 15 mil quilómetros de estradas. A Abrantina garantiu também em Junho uma carteira de projectos que ronda os 22 milhões de euros, depois de adjudicados dois concursos internacionais e perspectiva-se que estejam na calha dois empreendimentos, avaliados em 17 milhões de euros.

Investimento crescente

A Coba, está presente há quase três décadas na Argélia na fase de projecto e assistência a barragens, nomeadamente a de Seklafa. A empresa de consultoria de engenharia, liderada por Ricardo Oliveira, possui um escritório representativo em Argel que estabeleceu recentemente acordos para a execução dos anteprojectos detalhados e estudos de execução de 400 quilómetros de auto-estradas e mais duas barragens. O valor dos contratos ultrapassa os três milhões de euros, verbas que resultam de um plano de investimentos de cerca de 55 mil milhões de dólares (o equivalente a 45 mil milhões de euros).

Desse plano global fazem também parte projectos como a construção de um milhão de habitações (cerca de 5,55 mil milhões de euros), de estabelecimentos de ensino (quatro mil milhões de euros), o reforço das infraestruturas de saúde (850 milhões de euros) e o abastecimento das populações em água potável, independentemente das grandes infraestruturas (1,27 mil milhões de euros). Contudo, os grandes projectos incidem mesmo sobre a vertente das infraestruturas rodoviárias e ferroviárias, aos quais ainda se juntam os projectos hidráulicos, com um plano de investimento que ronda os 4 mil milhões de euros.

As barragens e a transferência de águas serão, neste domínio, as prioridades, na sua maioria promovidas pela agência argelina de barragens, e que requerem trabalhos de engenharia que as empresas portuguesas já deram mostras de estar à altura de concretizar. A Proconsultores, empresa liderada por Joaquim Nogueira de Almeida apresentou ao ministro da Economia uma lista de prioridades naquele país. A empresa tem na carteira de obras a Faculdade de Direito de Argel, o Liceu Internacional e um estádio de futebol com capacidade para 40 mil lugares cobertos.

Contudo, o documento refere ainda algumas dificuldades que se podem encontrar na Argélia, nomeadamente a concorrência de empresas francesas e alemãs, o facto de a regulamentação técnica ser diferente da existente na Europa e ainda as dificuldades do reconhecimento de técnicos.

As mesmas dificuldades foram apontadas por Jorge Cardoso. Para o director para a área internacional da construtora FDO, «as empresas portuguesas têm capacidade para desenvolver bons trabalhos na Argélia, mas caso formem parcerias entre si, pois a concorrência das empresas espanholas, francesas e mesmo americanas é feroz». A empresa, que ultima acordos para dois projectos na área da habitação social e na área dos projectos, vai apostar pela primeira vez naquele país e sente que é importante contar com o apoio das autoridades portuguesas presentes na Argélia. Para Jorge Cardoso, «grande parte da força das propostas portuguesas tem também de passar por um eficaz apoio da embaixada portuguesa e outros organismos».

Parcerias concretizadas

A constituição de ‘joint-ventures’ com empresas argelinas tem sido a principal aposta das empresas portuguesas que estão voltadas para o mercado na Argélia. De acordo com o Instituto de Comércio Externo de Portugal (ICEP), o grupo privado Cevital presidido por Issad Rebrab, estabeleceu parcerias estratégicas com a construtora Abrantina, com a Atecnic e com a Proconsultores.

Dos acordos assinados nasceram a Abrantina Algérie, a Atecnic Coolair e a Protelecom Algérie. A Topecal acaba por ser uma empresa de direito argelino gerida por capital português, ao passo que a Portal resulta de uma ‘joint venture’ entre a construtora Eusébios&Filhos e a empresa pública Société National de Travaux Publics.

O ministro da Economia, Manuel Pinho, adianta contudo que «cabe às empresas avançar» com propostas e com o estabelecimento de contactos para que na realidade, o mercado magrebino possa ser, efectivamente, um «mercado das arábias».

Estratégia

Como entrar?

Segundo os representantes do ICEP na Argélia, «ter uma representação local é muito bem visto pelas autoridades e parceiros argelinos, mas pode só se justificar depois de ter conquistado obra». Ao Construir, fonte do organismo salientou que as empresas nacionais deverão testar a sua competitividade respondendo a concursos internacionais.

Deverão fazer um esforço por encontrar um parceiro local adequado, não faltando ofertas de partenariado por parte de empresas argelinas, públicas ou privadas. A boa imagem que vem sendo criada por algumas empresas portuguesas já instaladas naquele país é, de acordo com aqueles responsáveis, um importante factor a ter em conta para quem pretende investir naquele mercado, apesar de salientar que as empresas devem estar preparadas para ser persistentes dadas as condições do mercado.

A tendência seguida pelas empresas portuguesas que já operam na Argélia passam, numa primeira fase, pelo estabelecimento de parcerias com empresas locais, à excepção da Coba, que opera naquele país desde 1978, e a Efacec, que aguarda que sejam solucionadas questões burocráticas para colocar em funcionamento uma filial. Uma boa forma de tomar contacto com a realidade local passa pelas feiras internacionais ligadas ao sector da construção e que anualmente se realizam na capital, Argel.

A Feira Internacional de Argel decorre todos os anos no início de Junho, ao passo que o Salão de Obras Públicas de Argel tem lugar anualmente, em finais de Novembro ou no início do mês de Dezembro.

PUB